Talvez Freud explique

A psicanálise e seu criador, Sigmund Freud, estão sendo duramente contestados - e com certa razão - num livro polêmico do filósofo francês Michel Onfray (O crepúsculo de um ídolo – a fabulação freudiana). Para Onfray, a psicanálise é inútil para curar pacientes e Freud era um charlatão. Lógico que a resposta não demorou para aparecer, tendo do outro lado do ringue nomes como o de Elisabeth Roudinesco. Polêmicas à parte, a psicanálise - tanto a freudiana, como a junguiana, a lacaniana e outras “anas” - tem um papel importante para a análise de algumas obras literárias.

Justamente no meio dessa discussão toda “tracei” uma antologia de contos de literatura fantástica, organizada pelo escritor Braulio Tavares, intitulada Freud e o estranho: contos fantásticos do inconsciente (Casa da Palavra, 352 páginas). Na apresentação, Braulio escreve que um dos pontos importantes da psicanálise é a ideia de que a consciência é só uma parte dos nossos processos mentais. O resto está no nosso inconsciente e só vem à tona a partir dos sonhos, de atos falhos ou ainda a partir do Fantástico, “considerado aqui como qualquer modalidade não-realista de narrativa (incluindo a fantasia, os contos de fadas, o sobrenatural, a ficção científica, os relatos alucinatórios e absurdistas e assim por adiante)”, segundo as palavras do organizador. Depois é analisado o ensaio “O estranho”, de Freud, em que o médico de Viena estuda tudo o que está além do nosso cotidiano, algo que foge a uma determinada realidade, por isso reconhecido muitas vezes como algo sobrenatural. São momentos aparentemente inexplicáveis, mas que não passam de projeções do nosso cérebro - órgão do nosso corpo mais misterioso do que um hipotético “além” – resultado de algo ocultado por distúrbios emocionais e que se revelam em determinadas situações.

Os contos selecionados têm algum elemento que simboliza essas projeções ou produz a sensação do estranho. No conto “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman, que abre a antologia, a protagonista começa a ver movimentos estranhos no papel de parede do seu quarto onde descansa depois de um período de estresse emocional. Poderíamos colocar isso como um caso de pareidolia, um fenômeno que quase todos nós presenciamos, quando vemos imagens em nuvens, por exemplo – quando criança eu via rostos no forro da minha casa. Mas também pode estar relacionado a um sentimento de opressão feminina projetado na figura que acaba se arrastando para fora da parede.

O conto que se destaca na antologia é “O homem da areia”, de E. T. A. Hoffmann, um clássico do gênero fantástico. Além de retomar a figura do “Senhor dos Sonhos”, aborda também a figura do autômato e de um dos aspectos do Estranho: a distinção entre seres vivos e seres inanimados (no caso, uma boneca que se torna um objeto de adoração à distância do personagem), que numa leitura atual pode estar relacionado à projeção do medo que o ser humano tem de ser dominado pelas máquinas.

Uma mesa de madeira que se materializa, uma mão que toma vida (num conto que inspirou um filme de Oliver Stone), a busca pelo mestre através da magia, uma caveira que grita, um gato vingativo (no conto de Bram Stoker, autor de Drácula), casas assombradas, fantasmas e profecias que se realizam (na história escrita por Arthur Schnitzler, que foi amigo de Freud e um dos primeiros a usar a psicanálise como instrumento literário). Esses são os elementos estranhos das outras histórias da coletânea. E como se não bastasse a excelente apresentação, Braulio Tavares ainda fecha o volume analisando conto por conto, enriquecendo o que interpretamos na primeira leitura.

Acredito que depois de traçar esse livro o leitor passará a ver as coisas a partir de um olhar diferente, pois o mundo ao seu redor não será mais o mesmo, apesar de continuar sendo estranho. Mas, é bom lembrar, nem tudo Freud explica.

Cassionei Niches Petry é professor. Além de escrever para este espaço [coluna Traçando livros no caderno Mix da Gazeta do Sul] e no blog www.cassionei.blogspot.com, escreve contos que devem um pouco a Freud. Mas lembra, para quem for ler os contos no blog ou em um futuro livro, que os analisados devem ser os personagens, não o escritor.

Comentários

Rô Candel disse…
Oi, Cassionei! Li teu comentário em meu blog. Muito obrigada! Achei um errinho de digitação em meu texto, que saiu hoje no Diário Regional, e quase tive uma síncope. Corrigi-o imediatamente no blog, mas, no jornal, ele ficou lá... Gostei de teu também! Abração! Rosana Candeloro
Cassionei Petry disse…
Eu não percebi erro. Os meus textos às vezes estão cheios. Mas comentei com o Dogival sobre os erros do Diário, diz ele que tem revisor, mas não parece. Quando publiquei um artigo lá, houve um erro de digitação que não deveria passar por um revisor. O jornal todo é cheio de erros. A coluna do Sandrinho, então, nem se fala. Por isso até parei de mandar textos para lá, pois apostava no jornal como uma alternativa à Gazeta, mas se continuar assim vai ser motivo de chacota como o jornal do Irton Marx, outro crivado de erros. Espero trocarmos muitas ideias por meio do blog. Abraço.

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