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Mensagens

A mostrar mensagens de 2015

Sobre escrever diários

Já tentei várias vezes escrever um diário. A última tentativa denominei de “Bauman foi mais esperto”, pois gostei do título que o sociólogo deu ao seu, que dialoga com a pintura do cachimbo de Magritte. Ainda esbocei algumas coisas em caderninhos, que chamo de “molekine de pobre”. Nada vai adiante. Poderia simplesmente retomar o diário de onde parei e registrar algo como “ah, não escrevo há tantos meses” ou “me perdoe, querido diário, por abandoná-lo”. Sinto, porém, que devo começar um novo. E não mais publicá-lo no blog ou nas redes sociais. Será um diário íntimo. “A alegria intensa é recolher-se e calar-se. Falar é dispersar”, escreveu Amiel em seu exemplar diário.
O crítico Rodrigo Gurgel elencou, em um texto de seu site, “10 motivo para escrever um diário”. Destaco o número 2: “Escrever um diário despertará sua autoconfiança. Você está livre diante da página em branco. Pode julgar os homens do seu tempo e você mesmo sem pudor, sem qualquer tipo de censura — o que não deixa de ser u…

No Traçando livros de hoje, "Guia politicamente incorreto do sexo", de Luiz Felipe Pondé

Filosofando sobre sexo

Comecei a conhecer a obra de Luiz Felipe Pondé a partir de Crítica e profecia – a filosofia da religião em Dostoiévski, um longo ensaio acadêmico sobre a obra do autor de Crime e castigo. Só depois apareceram na imprensa os seus artigos menos alentados em que o filósofo buscava atingir um público maior para as suas reflexões, sem deixar de lado, no entanto, sua enorme erudição. Surgiu daí o polemista, com pensamentos “de direita”, politicamente incorretos e, por isso, provocativos. É o tipo de escritor que gosto de ler: aquele que nos deixa inquietos, de quem às vezes discordamos, ou fingimos discordar, e outras vezes diz aquilo que gostaríamos de dizer e não dizemos, muitas vezes com vergonha do julgamento dos outros. Depois de Contra um mundo melhor e antes de A era do ressentimento, Pondé escreveu, em 2012 o Guia politicamente incorreto da filosofia, que se tornou um inesperado best-seller e lhe rendeu uma boa dose de críticas por fugir do que a esquerda dita c…

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje

Estrague sua vida que eu estrago a minha (título original)
Conheço pessoas que têm um aplicativo no celular que avisa onde há uma “blitz” policial. Não saem de nenhuma festa sem antes consultar o oráculo para poder fugir do bafômetro e de uma multa. Essas mesmas pessoas reclamam dos governantes, dos impostos, da crise, da violência, dos furtos. Inclusive têm medo de terem seus carros roubados. E, claro, esquecem que os bandidos também têm o mesmo aplicativo e que, por isso, também escapam da polícia depois de praticarem o roubo. Conheço pessoas que, depois de ler este primeiro parágrafo, já estão tentando se desculpar, se justificar, vão tentar me atacar, achando que estão certos em burlar as leis. “Ora, bebo, mas não perco meus reflexos”, “o limite de velocidade é muito baixo nas ruas da cidade”, “não deixo meus documentos em dia porque os governantes só nos tiram dinheiro e sou apenas mais uma vítima da indústria da multa”. E o bandido, pergunto, também não seria vítima de algo, segund…

Raio X de um poeta

“− Chegou o teu 'Troco poesia por dinamite' aqui, Barata.
− Obrigado, amigo, espero contar com uma análise do livro.
− Veio com cheiro de cigarro e tudo. Vi também que eu apareço com meu depoimento sobre a tua obra.
− O livro tem cheiro de cigarro, é isso? Que comentário inusitado! Encare isso como algo pessoal meu. ‘O cigarro é meu escarro’... rs.
− Quando abri o envelope senti o cheiro. Me senti próximo de ti, cara!
− Não foi proposital, mas é uma boa forma de encarar, rs. Essa é a vantagem e a desvantagem de receber livros que não são de editoras... Garanto que a Record ou qualquer outra grande não tem esse recurso... rsrsrsrs.
− Achei legal isso, é um bom ponto de partida para uma resenha. Tua vida está literalmente nos teus livros.
− Sim, sou transparente nisso, Cassionei. Vida e pensamento.”
Tive esse diálogo com o poeta Barata Cichetto através da internet. É uma troca de ideias que se mantém há alguns anos, depois de tê-lo ouvido em uma web rádio declamando poesias e tocando r…

Direita, esquerda, dois lados da mesma moeda

Por pura coincidência, leio dois livros de escritores com posições políticas bem distintas: Abelardo Castillo, que é de esquerda, e Nelson Rodrigues, de direita. Do primeiro, leio Diarios – 1954-1991, e do segundo, me debruço sobre O óbvio ululante – primeiras confissões. Em ambas as obras, por serem confessionais, os autores revelam suas ideologias abertamente. Não é, porém, sobre elas que quero escrever, mas sim sobre certo patrulhamento que noto nas redes sociais sobre o que se deve ler ou não.
Quem é de esquerda, por exemplo, critica quem lê autores como Luiz Felipe Pondé. Já me chamaram a atenção por ter postado uma frase dele, dizendo algo como “não acredito que você lê esse cara!”. Do lado da direita, nunca fui abertamente questionado, mas indiretamente noto pessoas considerando gente do calibre de José Saramago como péssimo escritor só por ele ter sido comunista.
Por estas e por outras é que eu me afasto cada vez mais de ideologias, pelo menos tento me manifestar o mínimo possív…

Conheça Carácolis (parte 1)

Carácolis é um país perdido no continente antártico, num lugar cujo relevo tem todas as condições necessárias para a sobrevivência. Ignorado até há bem pouco tempo pelo resto do mundo, tornou-se conhecido depois que passou a exportar caracóis, tornando-se a principal economia da nação.
“Não é mol a casca del caracol” é o primeiro verso de seu hino. A língua oficial é uma mistura de espanhol e português chamada enrolês. Falam devagar, assim com são umas lesmas quando se trata de trabalhar. O produto de exportação, portanto, não poderia ser outro, afinal não dá muito trabalho criá-los.
O regime político é o presidencialismo de casca, que funciona da seguinte forma: o povo elege o governante que, por sua vez, refugia-se na sua casa, uma espécie de caverna em forma de concha de caracol. De lá, executa as leis escritas nas paredes pelos antepassados que, dizem, teriam vindo de um país da América. De vez em quando o presidente, atualmente uma presidenta, põe a cabeça para fora para ver se es…

Os rios de Heráclito, Saramago e Borges no Traçando Livros de hoje

Não moro perto de nenhum rio. Próximo a minha casa há somente um arroio onde na minha infância tomava banho. Hoje mergulho apenas na minha biblioteca, que ainda não é rio. É dela que pesco meu alimento diário. Sobrevivo dos seus peixes, grandes e pequenos. Geralmente eles têm espinhas que trancam na garganta. São os mais apetitosos.
“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo.” Pesco esta frase em um livro da coleção Os pensadores, no volume dedicado aos filósofos pré-socráticos. Este famoso fragmento de Heráclito de Éfeso aparece também desta forma: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.” A ideia é de que mudamos, não somos a mesma pessoa depois que os anos passam. O Cassionei que antes se banhava no arroio perto de sua casa não é mais o mesmo Cassionei de hoje, muito menos as águas do arroio, que agora estão muito poluídas.
Fui levado ao rio de Heráclito depois de reler com meus alunos a crônica “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, de José Saramago, do…

Nei Duclós na minha coluna Traçando Livros de hoje

Romance que deixa rastros no leitor
As histórias do novo romance de Nei Duclós, Tudo o que pisa deixa rastros (edição do autor, 161 páginas) são sobre parte da História que deixou poucos rastros. O ficcionista apenas seguiu as pegadas, as pistas, as trilhas deixadas por alguns historiadores e jornalistas elencados na bibliografia. Poeta por vocação, historiador por formação, jornalista por profissão, o gaúcho Nei Duclós mostra-se um romancista que se arrisca, e com bons resultados.
Sigo também, para escrever estas linhas, os vestígios deixados pelo escritor. Eu próprio deixei meus rastros nas frases sublinhadas. Traço os livros como a onça deixa suas pegadas.
O romance é formado por fragmentos de parte da História não contada nos livros didáticos. Não há um protagonista, salvo se considerarmos o livro como um conjunto de contos, o que nos desmente a ficha catalográfica. São as guerras, os conflitos e revoluções ocorridas no Brasil nos séculos XIX e XX, dos conflitos da independência do …

Chamem o poeta!

No jornal Gazeta do Sul, página de opinião.

As sombras e os muros de José J. Veiga

Texto publicado na minha coluna no site Digestivo Cultural.
“Que são eles, quem eles pensam que são”, versos que pertencem à música “3ª do plural”, dos Engenheiros do Hawaii, seriam uma ótima epígrafe para boa parte das narrativas do escritorJosé J. Veiga. Há em muitos dos enredos de seus contos e romances uma localidade que recebe alguns forasteiros, cujas identidades nunca são reveladas, que instalam máquinas ou fábricas que interferem de certa forma na vida dos habitantes. Muda o cotidiano, as relações familiares são abaladas, amizades desfeitas e um clima de desconfiança entre os moradores fica evidente. Penso, só para exemplificar, no romance A hora das ruminantes e no conto “A usina atrás do morro”.
Sombras de reis barbudos, obra de 1972 reeditada recentemente pela Companhia das Letras, segue o mesmo caminho. O protagonista Lucas narra a história, a pedido de sua mãe, já alguns anos depois do ocorrido: “Sei que esse pedido insistente”, diz o rapaz, “é um truque para me prender em…

Meu texto no caderno PrOA, da Zero Hora.

Na Zero Hora de domingo, mais precisamente no caderno PrOA, publiquei um artigo sobre o concurso literário que exigia a promoção de valores morais nos contos concorrentes. Dou um pitaco, da mesma forma, sobre a redação do Enem, que exige uma dissertação politicamente correta: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/10/concurso-causa-polemica-ao-exigir-valores-morais-na-ficcao-4885711.html

Aconteceu uma orgia literária no Traçando Livros de hoje

Uma orgia literária

Aconteceu uma orgia aqui na minha toca, onde leio, escrevo, tomo meu café e ouço música. Gustave Flaubert, Emma Bovary e Mario Vargas Llosa misturavam-se sobre minha mesa de leitura e me proporcionaram dias prazerosos. O primeiro, escritor francês, e a segunda, sua criação literária, estavam nas páginas de Madame Bovary, de 1857, romance cuja melhor edição disponível por estas bandas é a da Companhia das Letras em parceria com a Penguin, com textos complementares de Charles Baudelaire e Lydia Davis, além da tradução de Mário Laranjeira. Mas eles também estavam no livro escrito pelo terceiro vértice deste triângulo amoroso, o romancista peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2007, no ensaio A orgia perpétua, lançado neste mês pela Alfaguara, com tradução de José Rubens Siqueira. Tenho a edição antiga, traduzida por Remy Gorga Filho, e serão deste volume as citações desta resenha.
Aos poucos, foram chegando à orgia outras personagens da trama, como o marido…

Júlio Nogueira e o celular na sala de aula

Mais uma colaboração do Júlio Nogueira, professor de literatura aposentado, que mora numa chácara no interior de uma cidade do interior do RS, e que hoje apenas lê e escreve. O mestre me mandou esse e-mail depois de ler um comentário no facebook de um desses críticos da educação que não saem dos seus gabinetes sobre um “gif” dos Simpson, que também compartilhei nas redes sociais da internet:
"Sobre o descaso dos professores retrógrados como eu que não usam o celular como recurso 'pedagógico' em sala de aula, cabem algumas considerações: 1- Nem todos os alunos têm o aparelho, o que dificulta o trabalho uniforme e gera a exclusão. 2 - O acesso à internet ainda é precário nas escolas. 3 - Se o professor não consegue controlar o aluno que não faz as atividades (como uma simples leitura de um texto) por causa do celular, quem garante que ele utilizará o aparelho para a atividade proposta? Vale para tablet, notebook, etc. 4 - Nem todos os professores têm condições ou querem ter um a…

"Feliz dia do 'Desligue o celular, Joãzinho!' ", minha crônica no site da Zero Hora

Minha crônica sobre o Dia do Professor no site da Zero Hora:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/opiniao/noticia/2015/10/cassionei-niches-petry-feliz-dia-do-desligue-o-celular-joazinho-4877052.html Feliz dia do "Desligue o celular, Joãzinho!"
Há muito tempo parei de escrever na condição de professor. Agora, em todos os textos que assino ponho embaixo escritor, apesar de esse não ser o meu ganha-pão. O motivo é que o que escrevo às vezes causa polêmicas que acabam respingando na minha atividade profissional e muitos não sabem separar o artista do mestre. Já perdi oportunidades de emprego na rede privada por causa disso. Nunca deixo, porém, de refletir sobre o trabalho na área de ensino. Aliás, a palavra ensinar parece que saiu de circulação, pois só se fala em educar. A própria denominação professor vem sendo sistematicamente substituída por educador, na qual não me encaixo. Vem sendo deixada de lado a ideia de transmitir conhecimento para a concepção de "treinar"…

Mais uma coluna minha no Digestivo Cultural

Na minha coluna no DC​, apresento trechos das notas sobre a criação do meu primeiro romance, "Os óculos de Paula". http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4197&titulo=Notas_confessionais_de_um_angustiado_(I)

Júlio Nogueira deu sinal de vida

Júlio Nogueira me mandou um e-mail do seu retiro intelectual para dizer por que andou parando de escrever. Mergulhado apenas nas leituras em meio a seus milhares de livros na biblioteca – construída durante mais de 50 anos no mínimo –, ele me conta que o mundo de hoje já não é mais aquele que era o seu. Cansou de ficar horas elaborando frases, refletindo sobre assuntos da mais alta complexidade e tentando colocar a alta literatura no seu lugar de direito, que é no alto mesmo, superior a toda e qualquer outra forma de escrita. Sua voz não ecoou, não repercutiu quando tentou postar nas redes sua filosofia literária. Enquanto isso, qualquer bobagem dita/escrita, qualquer “obra” de um artista medíocre, qualquer “videozinho” postado por celebridades ganham mais relevância. Basta vender bastante ou ter centenas de milhares de visualizações nas redes sociais para alguém ganhar o status de escritor, de revelação literária, de grande artista ou até de crítico literário.
“Dia desses, Cassionei, …

Ainda sobre o outro

Escrevi na crônica anterior algo sobre não pensar no outro. No entanto, como escritor, estou sempre olhando, analisando e me pondo no lugar desse outro. A alteridade é importante para o escritor. Alteridade, palavrinha que me fez passar vergonha numa entrevista para entrar no mestrado em uma universidade federal.

Acredito que sempre somos o centro do mundo. O mundo gira a nosso redor sim. Mesmo quem pensa na coletividade, no bem comum, é solidário, na verdade é por uma satisfação pessoal. Sente-se melhor consigo mesmo quando vê a felicidade do outro. Não deixa de ser, portanto, individualista e egocêntrico.
Vejamos o sexo. É um ato individualista, mesmo que seja a dois, a três, a quatro, etc, e mesmo para aquele homem que fica se preocupando se a mulher vai gozar ou não. Ele o faz porque sente prazer em ver o prazer do outro.
Os políticos são individualistas (conte-me uma novidade, Cassionei!), mesmo aqueles que dizem pensar no bem comum. O caridoso também é individualista. Todos pensam …

Estrague sua vida que eu estrago a minha

Conheço pessoas que têm um aplicativo no celular que avisa onde há uma “blitz” policial. Não saem de nenhuma festa sem antes consultar o oráculo para poder fugir do bafômetro e de uma multa. Essas mesmas pessoas reclamam dos governantes, dos impostos, da crise, da violência, dos furtos. Inclusive têm medo de terem seus carros roubados. E, claro, esquecem que os bandidos também têm o mesmo aplicativo e que, por isso, também escapam da polícia depois de praticarem o roubo. Conheço pessoas que, depois de ler este primeiro parágrafo, já estão tentando se desculpar, se justificar, vão tentar me atacar, achando que estão certos em burlar as leis. “Ora, bebo, mas não perco meus reflexos”, “o limite de velocidade é muito baixo nas ruas da cidade”, “não deixo meus documentos em dia porque os governantes só nos tiram dinheiro e sou apenas mais uma vítima da indústria da multa”. E o bandido, pergunto, também não seria vítima de algo, segundo os defensores do chamado “direitos humanos”? Não reclame…

Resenha de Aguinaldo Severino sobre "Os óculos de Paula"

Entrevista ao blog "Página Cinco"

Rodrigo Casarin me entrevistou para uma matéria sobre o caso do “Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis”, promovido pelo Sesc do Distrito Federal, cujo item sobre moralidade causou certa polêmica entre escritores. Segue o link: 
http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2015/09/30/regra-moralista-em-concurso-de-contos-revolta-escritores/

Edgar Allan Poe no "Traçando livros" de hoje

Poe e a insanidade como arte

Dia desses, num colégio de Ensino Médio, um professor de literatura teve uma daquelas experiências, ultimamente raras, em que consegue despertar o interesse dos alunos pela obra de um escritor. Realizando uma sessão de cinema na sala de aula, apresentou-lhes a obra de Edgar Allan Poe através do filme O corvo, direção de James McTeigue. O ator John Cusack interpreta o próprio escritor, que se vê envolvido na perseguição de um assassino que comete crimes e deixa pistas inspirado em suas histórias. Depois de assistir ao filme, uma aluna disse que ficou com vontade de ler os livros do Poe. Restou ao professor abrir um largo sorriso. A propósito, há uma excelente série televisiva, The following, com um mote parecido com o do filme, porém o assassino já é conhecido desde o primeiro episódio: um sedutor professor de literatura que transformava seus crimes em arte. E o pior, arregimentou uma porção de seguidores. Como dá para perceber, Poe influencia muita gente.
Pr…

Sobre o conceito de família para os cristãos

Na chamada "Sagrada Família", a mulher pulou a cerca, ficou grávida, deu a desculpa que foi de um espírito, e o pai, que não é o pai, acreditou e assumiu a criança. O pai de verdade é solteirão e o filho também não formou família oficialmente, mas, dizem as más línguas, teve filhos fora do casamento, no entanto. Amém?

As histórias magras de Rubem Fonseca

Ele é um dos meus heróis literários. Seus contos e romances – de narrativas envolventes, numa dosagem precisa de ação e pausas reflexivas, misturando palavras de baixo calão com expressões eruditas e rebuscadas, repletas de citações literárias e cinematográficas que me levaram a conhecer outros artistas – o colocaram merecidamente no panteão dos grandes escritores da nossa nem tão grande literatura. As obras recentes, no entanto, carecem da genialidade daquele que escreveu O cobrador, Feliz ano novo, Bufo & Spallanzani e A grande arte. Se outro grande contista, Dalton Trevisan, vem escrevendo também obras fracas, pecando por realizar o mais do mesmo, Rubem Fonseca nos frustra porque ele não é mais o mesmo. Tentei encontrar o bom e velho Rubem Fonseca na sua mais recente reunião de contos, Histórias curtas(Nova Fronteira, 176 páginas). Não deu. O livro chega a ser vergonhoso, apesar de alguns críticos terem afirmado que ele ainda está em plena forma. Não, não está, e não é porque te…