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Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Escrevi na Amálgama sobre "Histórias extraordinárias", de Edgar Allan Poe

Meu conto de Natal preferido

Podemos elencar muitos textos literários que tenham o Natal como tema. “Missa do Galo”, de Machado de Assis, por exemplo, ou “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles. Na literatura universal, o grande clássico é “Um conto de Natal”, de Charles Dickens.
O meu preferido é um conto não muito conhecido, de autoria de Luiz Vilela, intitulado tão somente “Feliz Natal”, publicado em 1978 no volume de contos Lindas pernas, Livraria Cultura Editora.
Nele, o narrador acompanha os passos do solitário protagonista, Ranulfo, durante a noite natalina. Ao contrário, porém, do que se possa imaginar, ele não está triste por ficar sozinho. Bem pelo contrário: ele foge de qualquer encontro com alguns conhecidos. E ele os tinha. E muitos.

Disfarçado, com um penteado diferente, barba crescida, roupa que não usava há tempos e óculos escuros, sai para comprar algo e cumprir um plano: “assim como Cristo nascia àquela noite, ele decidira renascer como outro homem (...)”. Faz de tudo para não ser visto, inclusi…

Imortal da Academia de Letras

(Foto: Maria Regina Eichenberg/Rádio Gazeta AM)



Imortal da Academia de Letras, pelo menos da Santa-cruzense. Tive a honra ontem de tomar posse e ser um dos fundadores, além de fazer parte da primeira diretoria. O time (escolhido com critérios determinados na lei que criou a Academia) é de peso e com muita experiência, inclusive sou o caçula. A nominata completa pode ser lida no link:  http://gaz.com.br/conteudos/variedades/2017/12/21/109896-municipio_ganha_academia_santa_cruzense_de_letras.html.php

Sobre “Amortalha”, de Matheus Arcaro

Gosto de contos concisos, daqueles que mais sugerem do que revelam. Faz-se necessário diferenciar o conto conciso do apressado. O primeiro apresenta todos os elementos da narrativa e conseguem manter, mesmo em poucas páginas, a tensão. Não sobra nada, mas também não falta. O segundo tipo pode até apresentar todos os elementos (muitas vezes não), mas falha na tensão, não provoca o clímax, sobra e falta muita coisa. Rubem Fonseca é mestre no conto conciso (vide “Passeio noturno”), porém nos últimos livros, vem nos apresentando contos apressados.
Matheus Arcaro demonstrou domínio do conto conciso no seu primeiro livro, Violeta velha e outras flores, de 2014, que já resenhei por aqui. Depois de uma experiência insatisfatória na narrativa longa em O lado imóvel do tempo, romance sobre o qual também resenhei por aqui, volta a acertar o alvo em Amortalha, livro de contos publicado, assim como as outras obras, pela brava Editora Patuá.
Como o título indica, as narrativas tratam de amor e morte.…

Minha resenha na Amálgama sobre "O cânone americano", do Harold Bloom

Minha resenha na Amálgama sobre "O cânone americano", do Harold Bloom (Ed. Objetiva, selo da Companhia das Letras, tradução de Denise Bottmann): https://www.revistaamalgama.com.br/12/2017/resenha-o-canone-americano-harold-bloom/

Minha crônica na Gazeta do Sul de hoje

Um cheiro estranho no ar “Aquelas pessoas estavam apodrecendo e não sabiam.” Assim termina uma crônica de Nelson Rodrigues em O reacionário – memórias e confissões. Curioso é que muita gente considera a palavra reacionário um xingamento e ao mesmo tempo enaltece a obra do escritor. Pinçam algumas frases que, mal sabem, atingem a eles e acham que estão “lacrando”, como dizem.
A frase acima encerrava uma crônica de 1970 em que um velho comunista, numa reunião de intelectuais (“Preliminarmente, devo confessar meu horror ao intelectuais, ou melhor dizendo, a quase todos os intelectuais”, escreve Nelson), afirmou ser inevitável o assassinato em nome da ideologia. Nelson, então, contestou: “Se você acha inevitável um assassinato de um inocente, também é um assassino”.
Não é diferente do que vemos hoje, quando se defende bandidos em nome de um partido, de uma ideologia, ou apenas por não dar o braço a torcer e dizer que errou. Direita e esquerda pregam aos convertidos que, em bando, em manada,…

Notas de leitura sobre “Siete casas vacías”, de Samanta Schweblin

Para Gaston Bachelard a casa representa o ser em seu interior, cada cômodo e andar simbolizando os estados da alma. O filósofo também atribui à casa o símbolo feminino de proteção, refúgio. Para mim foi inevitável ler os contos de Samanta Schweblin reunidos em Siete casas vacías (Editorial Páginas de Espuma, 123 páginas, ainda sem tradução por aqui. Se alguma editora se interessar, me habilito para a empreitada) sem pensar nessas representações. Almas vazias, mulheres desprotegidas e em busca de proteção.
Também me provocou a escolha do número sete. Por que este número? O livro originalmente se chamava “Las casas vacías”, contando com seis narrativas ganhadoras de um concurso. Posteriormente foi acrescentado outro conto, “Un hombre sin suerte”, que destoa (aparentemente como vamos ver mais adiante) dos demais. Por acaso (ou nada é por acaso?), chegou aqui na toca há pouco tempo o “Dicionário de símbolos”, de Jean Chevalier e Alan Gheerbrant, que reserva boas páginas para o verbete sobr…

Quando se perde um membro

Leonardo Brasiliense reforça intencionalmente alguns clichês sobre famílias disfuncionais em seu segundo romance, Roupas sujas (Companhia das Letras, 177 páginas): a primogênita que vê a irmã mais nova se casar primeiro e além disso precisa assumir o papel materno já que a mãe morreu, os gêmeos que disputam a mesma mulher, um pai autoritário e beberrão, que também tem uma rixa com um vizinho por causa de limites de propriedade, terminando de forma trágica, a irmã boazinha e o irmão que a tudo observa, analisa e depois transforma em um romance.
O que poderia ser um problema, nas mãos de um bom escritor como Leonardo Brasiliense se percebe que é uma estratégia e não deixa de ser um resgate de um tipo de narrativa que pouco se faz hoje em dia, um relato de uma família do interior com todos os códigos patriarcais bem delineados e as funções de cada membro estabelecidas e que são devidamente trocadas quando um membro falta. Não por acaso cada um dos gêmeos perde uma parte do corpo (um a ore…

Minha crônica na Gazeta do Sul de hoje.

“Decifra-me ou te devoro”

Em alguns momentos da minha vida eu vivia com a Bíblia debaixo do braço. Não ficava, porém, sempre com ela debaixo do braço. Eu também a lia. Lia, sublinhava, fazia anotações. E a questionava. Talvez a sua leitura a tenha me tornado um ateu, ou, como costumo dizer, voltado a ser ateu, afinal, nascemos sem crença alguma. É um livro repleto de contradições, mas não é o meu objetivo debatê-las agora.
Um dos métodos que seguia para ler a Bíblia era abrir aleatoriamente uma página, apontar com o dedo um trecho, de olhos fechados, e depois desfrutar dos versículos ao acaso. Achava que era alguma mensagem divina que recebia. Hoje utilizo a mesma estratégia com os livros do filósofo Friedrich Nietzsche.
Abro aleatoriamente uma página do livro Humano, demasiado humano II, em uma edição recente, de bolso, da Companhia das Letras, tradução de Paulo César de Souza. No topo da página 117, um aforismo, de número 348, me chama a atenção:
Da terra dos canibais. – Na solidão o solitário devora a si mes…

Escrevo no site Amálgama uma crítica sobre romance de Antônio Xerxenesky

Minha coluna "Uma biblioteca na cabeça" no site Entre textos

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje

Clique na imagem para ampliar. Também pode ser lido aqui: https://cassionei.blogspot.com.br/2017/02/super-herois-ou-viloes.html

A intrusa: um romance quase dispensável

Por compromisso profissional, li em pouco dias o romance A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), numa edição em PDF do site Domínio Público, do MEC. Além de ler a obra devido a sua inclusão na lista de leituras obrigatórias de um vestibular (em cima da hora, diga-se, com pouco tempo para os candidatos se prepararem), tinha curiosidade de conhecer a obra da escritora, tendo em vista elogios de críticos como Wilson Martins e Rodrigo Gurgel. A maioria dos estudiosos de literatura, porém, ignoraram sua existência. Ela não consta em livros essenciais da história da literatura brasileira. Ou seja, não está no cânone literário do nosso país.
Ao ler os dados biográficos de Júlia Lopes de Almeida, destaca-se o fato de ela ter sido uma intelectual influente no final do século XIX, tendo inclusive participado do grupo que discutiu a existência da Academia Brasileira de Letras. Não levou nenhuma cadeira, porém, pelo fato de decidirem seguir o modelo francês e fundar uma instituição exclu…

Minha resenha no Caderno de Sábado do Correio do Povo

Criar é transgredir
O artista é um transgressor por excelência, mesmo se não está transgredindo. O simples fato de não fazer nada pode ser uma transgressão. Se esperam algo dele e ele não o faz, está transgredindo. Penso nisso quando vejo uma patrulha que espera uma posição do artista em meio a questões políticas e ele se furta a participar, opinar. “Alienado!”, gritam os inquisidores das redes sociais. Ou “fascista!”, “comunista!”, “coxinha!”, “mortadela!”, se o seu silêncio for interpretado como adesão a um lado da peleia ou se ele muda de posição.
Paulo Ribeiro é um transgressor em vários sentidos. Sua obra é prova disso, bem como suas posições ideológicas declaradas. Recentemente, rompeu com o PT, do qual era filiado, em meio às reiteradas denúncias de corrupção. Decepcionou-se justamente porque não viu mais na sigla a transgressão que a firmava como o partido dos transgressores, muito menos dos trabalhadores. Os petistas traíram os transgressores (e os trabalhadores) ao se adaptar …

Resenha minha sobre romance de Santiago Nazarian no Amálgama

A insustentável leveza de ler (porque gosto de fazer trocadilho com títulos, deu pra perceber?)

Ler Milan Kundera é uma aventura estética, em que a escrita cuidadosa, numa mistura de ficção e ensaio, ao mesmo tempo que nos transporta para uma situação política complicada e descreve relacionamentos amorosos tão conturbados quanto à situação do seu país, também nos faz refletir sobre temas universais, tanto do mundo das artes quanto do mundo das pessoas.
Não sei por que razão ainda eu não havia lido A insustentável leveza do ser. Receio pela obra ter se tornado um best-seller? Talvez. Sua reedição pela Companhia das Letras, com tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, em mais uma bela edição de capa dura, num projeto gráfico que dá uma cara particular para as publicações do autor por aqui, me fizeram preencher essa inexplicável lacuna.
“O acaso tem suas mágicas”, escreve o narrador. E pelas forças do acaso é que se cruzam os caminhos de quatro personagens: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. O primeiro é médico e solteiro, mas que se relaciona com muitas mulheres. Ele e Sabina, u…

Meu artigo sobre censura nas artes publicado no jornal Gazeta do Sul

Arte vista por todos os lados
Nas últimas semanas, a arte vem sendo debatida e valorizada nos meios de comunicação. SQN, como escrevem os jovens nas redes sociais. Na realidade, sob o manto da defesa da liberdade de expressão artística ou da moral e dos bons costumes se esconde uma polarização política que vem se acentuando depois das eleições de 2014. A arte ganha alguma coisa com isso? Arte não "tem que ser", ela simplesmente "é". Não tem que ser transgressora, não tem que ser do contra, não tem que respeitar a moral, não tem que limitar seus temas. A arte é um trabalho elaborado com as linguagens, sejam elas as palavras, a expressão corporal, o desenho, as cores, as imagens, as notas musicais, etc., com o intuito de despertar os sentidos do apreciador. É o que chamamos de "estética" (do grego "aisthesis", que significa "faculdade de sentir"), por isso a relação com a beleza, sendo que o belo não é necessariamente algo "bonito&quo…

Vamos falar sobre suicídio?: Crônicas e ensaios sobre a morte voluntária na literatura

Publiquei na Amazon um e-book, em versão para Kindle, uma reunião de artigos, crônicas, resenhas ensaios em que aparece a questão do suicídio, sempre relacionado, como não poderia deixar de ser, à literatura. Os textos já foram publicados aqui, em sites e em jornais em que colaboro.
"Crônicas e ensaios que tratam sobre o suicídio, principalmente na literatura: sobre obras que tematizam a morte voluntária ou sobre artistas que decidiram tirar suas vidas. Falar sobre o assunto tão impactante é uma forma de prevenção e isso pode ser feito de uma forma até bem-humorada. Cassionei Niches Petry não se furta em abordar o tema em suas obras, tanto nestes textos, quanto nos livros de contos ("Arranhões e outras feridas" e "Cacos e outros pedaços") e no romance ("Os óculos de Paula") que publicou. Não deixar de refletir sobre o suicídio é uma forma de jamais cometê-lo."
Para ler não é necessário um Kindle. Basta baixar os aplicativos para PC, tablet ou celu…

Notas de Cassionei Petry, professor (a respeito de Sant'Anna)

Sérgio Sant'Anna vem desde 1969, com O sobrevivente, realizando uma literatura de alto nível, sem deslizes, diferentemente de muitos autores de sua geração, que não conseguem manter a mesma pegada.Anjo noturno, recém lançado pela Companhia das Letras, traz um conjunto de narrativas (termo que ele prefere no lugar de contos) em que mais uma vez o diálogo com diferentes tipos de arte (pintura, artes plásticas, teatro, música e, por que não, a TV)dá unidade aos enredos, além do tom memorialístico. Em "Augusta", o primeiro conto, um professor universitário se aproxima de uma produtora musicalem uma festa no Rio de Janeiro. Vão depois para a casa dela, onde um quadro pintado pelo antigo morador que se suicidou (o suicídio é um tema recorrente na obra) atrai a atenção dele: "uma mulher nua retratada frontalmente, mas com as pernas fechadas, de maneira que o seu sexo não se exibe ostensiva ou vulgarmente". Na altura de um dos seios, uma perfuração feita com faca pelo a…