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Bloomsday



Meu primeiro exemplar de Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, tem 550 páginas, mas com letra bem miudinha. Comprei-o no final do século passado em um sebo da minha cidade. À época, estava tentando me tornar um escritor, o que tento até hoje, sem muito resultado, por isso lia enlouquecidamente. A edição em capa dura, vendida em bancas de revistas, é da coleção “Mestres da literatura contemporânea”, parceria das editoras Record e Altaya. A tradução é a clássica, realizada pelo Antônio Houaiss (sim, o mesmo que dá nome ao dicionário que veio para desbancar o Aurélio). Minha biblioteca ainda estava engatinhando (hoje posso dizer que está entrando na fase adulta) e com o novo exemplar ganhou o direito de pelo menos andar dois passinhos sem ajuda.

Agora tenho também, porém em versão digital, a tradução realizada por Caetano Galindo e editada pela Companhia das Letras. Intitulada Ulyssescom y, me fez reler parte da obra, agora renovada e com ótima introdução do professor Declan Kiberd. Na versão impressa, são 1112 páginas de uma volta a Dublin em um dia realizada pelo personagem Leopold Bloom e seu amigo Stephen Dedalus.

Esse é aquele romance que muitos dizem ter lido sem nunca tê-lo realmente. Alguns por esnobismo intelectual, outros por ignorância, caso do escritor mais vendido do mundo, Paulo Coelho. O “mago” afirmou que Ulisses não diz nada e que seu conteúdo poderia ser resumido nos 140 caracteres do Twitter. Na verdade qualquer obra poderia, mas apenas nas suas linhas gerais, não no que há nas entrelinhas, no não dito, na parte escondida do iceberg. A cada releitura que se faz de clássicos como o de Joyce, novas possibilidades de leitura se abrem. Seu significado nunca se esgota. 

Quando o li pela primeira vez, confesso que, mesmo gostando da história, não a captei por completo, até porque não havia lido (pelo menos na sua versão integral) a Odisseia, de Homero, cujo personagem principal, Odisseus, nome grego, recebe o nome romano Ulisses. A partir daí, na segunda leitura, guiado por textos da extinta revista Entrelivros, que explicavam as referências dos capítulos do romance com episódios da epopeia de Homero, uma nova forma de ler a obra-prima joyceana me foi apresentada, o que a tornou mais bela e instigante do que da primeira vez.

Hoje os admiradores da obra celebram – com leituras, encenações e bebidas – o Bloomsday, o dia em que acontece a odisseia de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, na Irlanda, mais precisamente em 16 de junho de 1904. Na vida pessoal de James Joyce, foi a data em que ele e Nora Barnacle, que viria a se tornar sua esposa, se conheceram, segundo alguns, no sentido bíblico do termo.


O ganhador do Nobel de Literatura (prêmio que Joyce não recebeu), William Faulkner, disse que “o leitor deve abordar o Ulysses de Joyce como um pregador batista iletrado aborda o Velho Testamento: com fé”. Fiz a minha parte, lendo alguns versículos dessa bíblia da literatura moderna. E para quem não o considera um grande livro, rogo: “Perdoai, Joyce, eles não sabem o que falam.”   

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